terça-feira, agosto 25, 2009

Versos

Os Ombros Suportam O Mundo
(Carlos Drummond de Andrade)

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Vi aqui e, como reflete demais o que eu sinto neste momento (resumão: pára o mundo que eu PRECISO - nem é mais quero - descer), postei também.

Um comentário:

Eduardo Mesquita disse...

Oi, Cris

Ainda bem que você passou lá, há muito tempo que eu não vinha aqui.

Espero que sua vida esteja indo tão bem quanto a minha parece caminhar. Mais que uma ordem, a vida é uma questão de escolhas.

Há braços,

Eduardo