sexta-feira, novembro 02, 2007

Finados

Sobre a morte e o morrer
(Rubem Alves)

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto..."

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa..."

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama - de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


"... Muito amiúde tem o homem o pressentimento do seu fim, como pode ter o de que ainda não morrerá. Esse pressentimento lhe vem dos Espíritos seus protetores, que assim o advertem para que esteja pronto a partir, ou lhe fortalecem a coragem nos momentos em que mais dela necessita. Pode vir-lhe também da intuição que tem da existência que escolheu, ou da missão que aceitou e que sabe ter que cumprir..."


[KARDEC, Allan - O livro dos esíritos, p. 392]


Às vezes acho que sou uma pessoa fora do convencional... Explico: não tenho medo de morrer. Tenho medo de sofrer, medo do sofrimento que a morte dos meus queridos causará, mas não temo a minha passagem.

Não gosto de pensar nisso, não freqüento nada relativo a nenhuma religião e não costumo escrever a respeito - acho um tema muito controverso e não tenho tempo nem disposição para discutir isso. Respeito todos os pontos de vista, mas acho que cada um tem o direito de encontrar o seu caminho e deveria respeitar o dos outros.

O dia de finados sempre foi algo indefinido para mim, pois não temos o hábito de visitar os túmulos de nossos queridos que já fizeram a passagem. E, pelo menos eu, lembro deles sempre, sem data marcada... Com maior ou menor freqüência, dependendo do acaso (ou não).

Procurando algo para postar no dia de hoje, me deparei com três que me despertaram a atenção. O ensaio sobre a morte e o morrer de Rubem Alves e dois fragmentos de Allan Kardec. Optei por postá-los em um único post e não em seguidinha por achar que nessa ordem ficou bem claro o meu ponto de vista. Os pontos destacados no texto são os que mais me chamaram a tenção e eu gostei particularmente desse trecho a seguir.


"...Sensibilizam-se os Espíritos ao lembrarem deles os que lhes foram caros. Se são felizes, esse fato lhes aumenta a felicidade. os Espíritos acodem ao chamado dos que da Terra lhes dirigem seus pensamentos, como o fazem noutro dia qualquer. Nesse dia, em maior número se reúnem nas necrópoles, porque então também é maior, em tais lugares, o das pessoas que os chamam pelo pensamento. Porém, cada Espírito vai lá somente pelos seus amigos e não pela multidão dos indiferentes..."

[KARDEC, Allan - O livro dos esíritos, p.191]

3 comentários:

Micha disse...

tb já tive mto medo de morrer, hj não mais..mas sei q vou sentir saudade, pq amo viver...

só não quero sofrer...e não quero ver nenhuma pessoa sofrendo tb...

http://eventofotos032.kit.net/?viviane_boldes.jpg

Micha disse...

putz..colei o link erradamente, ia colar a bonequinha de beijos...
não clique nesse link, tava no meu orkut, mas fui ver e era vírus, é um arquivo .exe...

NÃO CLIQUE NESSE LINK ACIMA.


...... @@ ......... um abraço
....@(`;`)@........e um ótimo
0==/--\\\\==0.....feriadão
...../___\\\\...........
....._| |_...........beijossss

Grace Olsson disse...

Eu leio muito os livros de Kardec, assim como livros mediúnicos, e acredito em vida após a morte. Mas, o que nos assusta não é a morte mas o medo dom desconhecido.Mas, se vc entrar em coma, semi-coma, como eu entrei meses atrás, ao retornar vc tem uam visão do que seja a passagem. Vc fica ali inerte, apenas o corpo, mas o espírito, não. Fica em volta, olhando cada UM que chora.Foi essa visao que tive quando fui para a UTI de um hospital.Eu via meu filho e marido chorando mas nao podia falar nada.Eu estava longe. É algo impressionante. Mas isso nao significa que eu não queira viver. Depois disso, eu decidi brigar pela vida, pela PAZ e perdi apego ao materialismo. Se eu nao tinha antes. Agora que nao tenho mais.Nada tem valor. A não ser a paz DE VIVER CADA DIA MAIS SENDO E FAZENDO FELIZ.UM ABRAÇO.E BFSEMANA
www.almacigana.blogspot.com